terça-feira, 30 de junho de 2020

TÉDIO

O que pode ser isso?

Físico não é, mas parece ser! É como se fosse flocos de neve no mais flamejante deserto.

É a coisificação do tempo eterno, em uma só noite.

É um aborrecimento enojado das coisas fúteis que nos rodeiam no aí.

Talvez fosse melancolia em ataque como uma nebulosa tristeza que acomete e afeta...

Será um excesso de vazio, no próprio nada, que incessantemente o tempo nos revela?

É dissipar-se no lado inverso do sublime.

Seria, quem sabe, a angústia presenteando-nos com o nada para nele ficarmos suspensos?

Não!

Não é aborrecimento; não é melancolia, nem tristeza, nem angústia.

Então o que é?

É um estar detido no decorrer das horas, como o ponteiro que ‘marca’ o tempo, mas não é o tempo e nem sai do lugar...

É uma afecção que causa inércia, mas ao mesmo tempo é avassaladora ao coração.

Não é um estado psíquico-patológico, nem é o medo de morrer...

É um calafrio impetuoso que invade aquilo que pode ser chamado de alma e lhe arranca a essência e enterra o seu conceito imortal.

É um desterro, é uma dor fora do corpo que fere o ‘ar’ – espaço vazio - entre os objetos existentes.

É um relutar frente a correnteza do todo e do tudo como fenômenos necessários ao ser.

Não estou sabendo qual é a causa e por qual causa isso toma-me completamente.

Talvez seja uma película invisível do tempo, que não me arrasta nem fixa-me, mas é estrondosamente poderosa...

Mais uma vez pergunto: O que isso?

É o poderoso TÉDIO... de tudo!

Mas entenda! É pelo TÉDIO que (re) tomamos (tomamos de novo) o que haviam roubado de nós, ou nós mesmos havíamos perdido. Só.


(Ezildo Antunes - Esp. em Educação e Me. em Filosofia)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

EU ERRO



            No ano de 2016 eu escrevi: “O ser humano não é errante porque erra. É errante porque caminha. Caminhando ele erra e na errância, ele aprende. Aprende que precisa errar para aprender, e, aprendendo, ele sempre sabe que é um errante, não porque procura o erro, mas porque sempre escolhe caminhos.”
            O que é então o erro?
            O erro é uma falha. É uma ação. O erro é uma tentativa. O erro é uma causa... e o que causa o erro?
            O erro é causado pela intenção ou pela vontade de acertar.
            Se for intencional, já não é mais erro, mas sim maldade. Se você erra intencionalmente, você expõe o mau-caráter, você não usa sua fagulha divina, ou seja, a luz de sua razão.
            Mas se você erra tentando acertar, sem propósito de errar, você mostra a genuína marca do humano, isto é, somos passíveis de erro e sendo assim, também somos eximidos da culpa por errar.
            Errar intencionalmente se concretiza quando sabemos o que é para fazer e, por esse ou aquele motivo, não o fazemos, ou seja, nosso propósito é errar.
            Mas, quando não se sabe o que fazer e, quando pede-se urgência na ação, então toma-se a decisão mais aproximada do que é certo. A incerteza no que se terá que fazer, retira a configuração do erro intencional. E, às vezes, nosso caminho é incerto, mas precisamos caminhar, errando e acertando. Às vezes o caminho é obscuro, mas temos que buscar a clareira... Ás vezes o caminho é nebuloso, mas precisamos marchar em direção da luz. E por isso mesmo que, na obscuridade – erramos, assim também como na nebulosidade...
            Em tempo de incertezas, vamos errar mais e talvez acetar menos, mas isso não quer dizer que erramos intencionalmente... Se erramos, como de fato pode acontecer, foi fazendo o melhor que tínhamos que fazer naquele momento de incerteza. Aliás, como diz um filósofo: “Quanto mais incertezas temos, mais inteligentes somos.” Por que estar certo de alguma coisa ou de tudo, faz com a inércia tome conta da nossa ação, não nos movimentamos mumificados pela estagnação.
            Por isso eu digo: Eu erro!
            Erro porque faço! Erro porque quero que aconteça! Erro porque busco fazer o meu melhor! Erro porque sou de tentativas! Erro porque sou errante! Erro porque penso e me movimento no labirinto daquilo que penso ser possível.
            Então, quando eu errar, ou seja, quando eu não corresponder sua expectativa, não me julgue. Primeiro por que não há ninguém que não erra; segundo porque não errei intencionalmente; terceiro, porque errei tentando acertar, errei fazendo o melhor que podia naquele momento.

(Ezildo Antunes - Esp. em Educação e Me. em Filosofia)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

POR UMA MAIÊUTICA AO CONTRÁRIO

Demorou, mas chegou o tempo!
Qual?
O tempo em que devemos praticar (por força maior) uma maiêutica ao contrário.
__ O quê?
__ Explico!
"Tenho isso em comum com as parteiras: sou estéril de sabedoria; e aquilo que há anos muitos censuraram em mim, que interrogo os outros, mas nunca respondo por mim porque não tenho pensamentos sábios a expor..."
As linhas destacadas acima são, segundo Platão, palavras de Sócrates (Teeteto, 15c), onde compara seus ensinamentos (seu método) à arte das parteiras.
Obviamente Sócrates é o parteiro de ideias - dos outros - Ele pergunta! Ele interroga! Expõe sempre o outro! E, de forma sagaz, demonstra o erro dos outros e ainda usa seu ímpeto mordaz para ironizar e tentar colocar seu interlocutor em situação ridícula.
Mas isso era naquele tempo! E hoje?
Nós, nesse tempo transitório, caótico, incerto... tendemos ser aquele Sócrates mordaz nas palavras. Praticamos a má(eu)tica (se é que me entende!?).
Apontamos o dedo. Criticamos. Duelamos. Polemizamos. Ferimos. Polarizamos. Soltamos palavras ao vento... É sempre o outro o culpado, o errado, o imbecil, o inculto, o impróprio, o idiota, o incauto...
Já está mais que na hora (e um minúsculo organismo está forçando para isso) de realizarmos uma maiêutica ao contrário, isto é, este é o momento em que devemos parar de desviar-nos do nosso próprio rosto.
Quem dera seguíssemos não a má(eu)tica, mas sim a primeira lição do velho Sócrates. Aquela que ele mesmo aprendeu com o oráculo: "Conhece-te!"
O autoconhecimento não é um tema do modismo coach do nosso tempo! Ele é bem mais antigo e profundo. É um convite necessário do Eu.
Ou ainda...
Seria melhor imitarmos o velho Sócrates quando disse (segundo Platão): "Uma vida não examinada, não merece ser vivida." (Platão, Apologia, 38 a).
Isso não é uma lei moral, isto é, que alguém te empurra 'guela' abaixo. Nem está expressa em preceitos de fetichismo religioso. Isso deve ser uma apelo de sua própria consciência. É como aquele apelo da "voz" da consciência que, segundo Heidegger (§ 55 de Ser e Tempo) deve ser realizada pelo próprio ente (ser-aí) de existência, isto é, por cada um de nós. Não é um mero tribunal do eu como se a consciência se apossasse de uma voz, ou seja, deve ser sem mediação, visto que "só é atingido pelo apelo quem quer recuperar-se." (p. 350).
É isso a maiêutica ao contrário! Em um tempo de ruídos, de falação... É hora de recuperar os sentidos, perguntar-se pelo sentido e dar novos sentidos à nossa existência.
Se isso não for possível, pelo menos, fique então com a terceira máxima socrática: "...ele não sabe nada e pensa que sabe alguma coisa. Eu não sei e nem penso que sei alguma coisa. Parece que tenho uma ligeira vantagem sobre ele..." (Platão, Apologia).
Maiêutica ao contrário é isso:
1. Conhece-te;
2. Examine (escute o apelo da voz da consciência)
3. Não fique achando que sabe.

(Ezildo Antunes - Esp. em Educação e Me. em Filosofia)

sexta-feira, 6 de março de 2020

MULHER

Música autoral em homenagem às MULHERES Imagem da terra É a mais bela da criaturas Fonte de Vida, às vezes ferida Mulher! Estrela do norte É a mais forte, sai pra brilhar E com o seu brilho cobre teus filhos Mulher! E se um pranto em seu rosto rolar Olhos pra frente, não deixe de amar Quantas histórias, lutas e guerras Você venceu! Amor profundo, sonhos que o mundo reconheceu! Quantas Marias daqueles dias Tão atuais Mulher!

domingo, 12 de maio de 2019

NÃO LAMENTE A FINITUDE

Não lamente a finitude!
Só pode ser finito aquele que teve a grande dádiva da existência.
Não lamente, pois nascendo já sabemos que há finitude.
Quando fora 'jogado' no mundo e quando ainda pequeno se reconheceu como ente que de fato existe,
já estava aderido em ti a marca da finitude.
Não lamente a finitude, nem sua, nem a do outro...
Apenas viva e faça valer essa finitude.
Talvez a maior marca do ser existente é saber que é finito
Pois assim sendo, pode aproveitar de fato a existência
e não fazer dela uma vida fútil e medíocre.
Quando chegar a hora de quem amamos, não lamente a finitude daquele que está partindo
Aprenda com aquela vida:
Se fora exemplarmente positiva, aproveite!
Se fora exemplarmente negativa, não julgue!
Não lamente a finitude, apenas entenda quanta dádiva há no espaço entre o nascer e o findar.
Entenda que a vida é uma grande oportunidade para fazer de sua finitude a sua melhor lembrança...
Quando findares, as pessoas que se despedirem vão sussurrar e dizer: Esse soube o que era de fato finitude, soube viver, soube morrer, soube aproveitar a dádiva que recebeste de graça do Criador.
Não lamente a finitude, pois se assim fizermos, estamos dizendo a nós mesmos que a vida não valeu a pena e que queríamos mais tempo aqui para realizarmos aquilo que almejávamos de fato.
Não lamente a finitude! apenas diga: Cumpri minha missão e fiz valer uma de minhas essências: a de ser finito.

domingo, 27 de janeiro de 2019

RE(ENCONTRO) IN - TER - ESSE

RE(ENCONTRO) IN-TER-ESSE


Nosso reencontro só terá sentido se tivermos interesse...
Interesse em amar o outro como legítimo outro
Interesse em crescer e aprender com o outro
Interesse em buscar ideias novas e compartilhar com os colegas de profissão
Nosso reencontro valerá a pena se...
Tivermos interesse em caminhar juntos de mão dadas, não se impondo tão a frente,
mas também não ficando atrás.
Interesse em ajudar as pessoas (se elas quiserem) a cada vez mais serem pessoas melhores
Interesse em espalhar o amor e demonstrar paixão naquilo que fazemos
Interesse em viver a solidariedade, a empatia e o altruísmo...
Porque solidariedade é dar
Empatia é fazer-se
Altruísmo é doar-se
Nosso (re) encontro só será vigoroso, se...
Tivermos interesse em unir forças para fazer do mundo um lugar cada vez melhor
Interesse em presentear o outro
Interesse em dar um abraço apertado no próximo e chorar com ele se preciso for
Interesse em festejar, comemorar e celebrar momentos que são únicos em nossa vida
Nosso re – encontro só será verdadeiro se...
Tivermos interesse em não espalhar discórdia
Interesse em nos aproximarmos cada vez mais de Deus
Interesse em buscar cada vez mais nos conhecermos para vivermos melhor
Interesse em saber que não devemos ser pessoas interesseiras e muitos menos desinteressadas.
Interesse é definitivamente a vontade de TER o que desejamos, e, aposto
ninguém se interessa em ter uma vida medíocre (isto é, pela metade), mas sim cada um de nós tem o interesse de viver plenamente e cumprir nossa missão aqui na terra que para alguns é o próprio sonho de DEUS.

Bom retorno a todos! Que bom reencontrar VOCÊ.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

2019 - Esse é o ano para você despertar

2019!
São mais 365 chances para você buscar o seu despertar!

Mas o DESPERTAR só irá acontecer se você der o primeiro passo!


Isso mesmo: Não tem outra alternativa a não ser caminhar.
ENFRENTAR os desafios que cada um de nós tem todos os dias:

Mas cuidado para não caminhar torto! Sem destino. Sem direção.

É por isso que criei essa frase ao lado, pois você precisa dar os primeiros passos, mas não qualquer tipo de passo.
Seus passos devem ser precisos.

Quer realmente como fazer isso em 2019?














quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

LOTÓFAGO

Deve ser mito mesmo
O que falam dela
Dizem que embriaga
Qualquer homem da terra.
Consultei um guru
Que conhece de flores
Ele disse: que pena!
Sei dos seus dissabores.

Religião, precipício,
Conheci no início, mas não pude tocar
E num rio paralelo
O meu barco eu navego
Vejo ela passar.

Se um mundo se abrisse
E de novo existisse, aquele pano xadrez
Eu não ia hesitar
E minha flor de lótus
Eu iria encontrar.

Deve ser mito mesmo... eu iria encontrar
Religião, precipício... eu iria encontrar
E num rio paralelo... eu iria encontrar

terça-feira, 13 de novembro de 2018

ASSIM COMO OS GIRASSÓIS



Era uma vez um jovem ansioso em descobrir o mundo e logo teve um encontro com um velho sábio.
O jovem se aproximou do velho sábio e perguntou:
___ Qual o segredo da vida?
O velho sábio disse:
___ Vá aos campos e observe os girassóis. Observe atentamente. Volte depois de três dias e aí continuamos a conversa.
O jovem muito curioso, não entendeu por que o sábio tinha lhe falado isso, mas sem resignação partiu a fim de observar os girassóis.
Passados três dias, o jovem foi ao encontro do velho sábio e disse:
___ Pronto! Já fiz tudo o que me pedira. Mas não encontrei a resposta para a pergunta que lhe fiz.
O velho sábio então disse:
___ Senta aqui, que eu vou lhe explicar.
Cada girassol representa cada um de nós. Vivemos todos no mesmo campo: A vida, o mundo! Vivemos partilhando espaços com os outros. Embora pareçam todos iguais, cada girassol tem sua peculiaridade. Assim também somos nós. Cada girassol tem suas raízes cravadas no chão, mas também buscam ‘olhar’ para o alto. Nós também. Somos seres com os pés firmes no chão, mas somos o único animal que possui a verticalidade para olhar para o horizonte.
Perceba filho! Cada girassol busca incessantemente o sol. Para nós, esse sol é Deus. Querendo ou não cada um de nós busca incessantemente Deus. Mesmo aqueles que não acreditam, um dia já falaram: Ai meu Deus!
Então o jovem disse:
___ Mas à noite, como os girassóis agem?
À noite – respondeu o velho sábio – A noite eles se voltam para si em buscam e si mesmo forças, vigor, esperança... de que no dia seguinte o sol estará lá com o seu poderoso brilho.
Assim somos nós! A noite significa aqueles momentos nebulosos, difíceis, sombrios que cada um de nós terá que passar enquanto caminhamos neste mundo. Nesses momentos pensamos que Deus nos abandona, mas não, Deus está sempre presente nos protegendo. Mas como os girassóis, de vez em quando, temos que voltar para nós mesmos e buscar em nós força, vigor, esperança...
Então o jovem disse:
___ Mas os girassóis morrem. E aí Termina tudo?
O velho sábio levantou, olhou bem nos olhos do jovem e disse:
___ Sim! Os girassóis morrem, mas isso não significa que acabou tudo. Cada um deles deixará para o mundo dezenas... se não, centenas de sementes que serão utilizadas para os mais variados fins. Inclusive para germinar outros girassóis.
Assim somos nós. Ao deixarmos esse mundo e confirmarmos a possibilidade da não mais possibilidade: a morte, deixamos sempre sementes, deixamos sempre um legado, deixamos sempre nossa marca.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O QUE EU APRENDI COM O RÁDIO DE PILHA

SILENCIAR
__ Silêncio! dizia meu pai. __ Vamos sintonizar uma estação! Então ele girava o botão e de chiado em chiado, de repente: Bingo! Achamos a estação.

A MEDIDA CERTA
Aprendi a medida certa das coisas quando meu pai ia quase que em 'câmera lenta' até achar aquele ponto exato onde (lá na roça, longe de tudo) sintonizava uma única AM.

PACIÊNCIA
Quantas vezes 'acabavam' as pilhas e aí era preciso esperar. Esperar até que meu pai fosse no armazém mais próximo ou até a cidade para comprar novas pilhas. Isso poderia demorar semanas e pacientes esperávamos e quando a pilha nova chegava era aquela alegria.

ORAR
Sim! todos os dias as 18 horas era um momento sagrado. Era a hora da Ave Maria. Uma oração e uma canção do Pe. Zezinho.

O GOSTO PELA MÚSICA RAIZ:
Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Liu e Leo, Leo Canhoto e Robertinho, Chitãozinho e Xororó... era a trilha sonora. Músicas que falavam sobre as coisas da natureza, histórias com uma 'moral', ... tinham letra, tinham melodia.

AMAR
A família se reunia para ouvir o rádio, para ouvir histórias e canções de amor. Tinha café! Pão quentinho ou chimarrão, tinha canjica, virado de feijão... tinha união. Vivíamos de fato o amor em família.

Em fim... No tempo do rádio de pilha, quase ninguém era pilhado.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

OPÇÕES

Se reuniram os melhores alimentos!
Chamaram também para a trupe o VINHO, a ÁGUA e o CAFÉ.
Foram até o CORPO e disseram:
__ Eis o que precisas para ser saudável!
O CORPO respondeu:
__ Não estou só! Descartes me proclamou res cogitam também!
__ Tudo bem! disse o VINHO, a FILOSOFIA não te fará mal (ou não!?)
Eis que do nada (ou da matemática), apareceu a MÚSICA e disse:
__ Para pisares nos pedestais dos deuses, use-me!
Escutando tudo isso, com voz suave e ácida, disse a POESIA:
__ Que devaneio ingênuo!


@ezildoantunes

terça-feira, 29 de maio de 2018

AINDA HÁ TEMPO NESTE TEMPO! OU NÃO!


Está nascendo um novo tempo! É um tempo de transição: de conceitos, de pessoas, de tipos, de ideias, de pensamentos, de tribos, de grupos... As pessoas estão em agrupamentos diversos, são retirantes, são imigrantes, são ricos, são pobres... cada qual defendendo uma nova ‘logística’ de vida.
As pessoas não aprendem mais nas escolas, as pessoas se solidarizam virtualmente, as pessoas falam, xingam, deturpam... e de repente, do nada, de um rincão desconhecido surge um ato heroico. Todos aplaudem! No outro dia uma catástrofe por (pôr) fogo estampa as capas dos jornais (aqueles que ainda gastam papel com notícias de sangue). E de repente uma eleição fraudada leva mais um desses humanos inumanos ao poder e o povo idolatra, e o povo bate lata, panela, bate boca, ergue bandeira, queima pneu, viaja.... Outros riem dos infernos alheios e não são capazes de olhar nos seus próprios espelhos. Uns mentem, outros sonham, outros escondem malas de dinheiro e se safam como se nada tivesse acontecido.
As pessoas não se moralizam pela religião! Alguns apenas aprendem as lições do chão, dos rios, das borboletas, dos ets... Líderes mundiais criam muros, investem em armas, outros ainda escrevem poemas e nada dispersa a multidão atrás de ilusões perdidas. Abram as ‘ventanas’, enxerguem para além da cartilha dos macacos adestrados... A cegueira atrapalha, a ignorância lhe presenteia e quem acolhe é esquecido como sempre. Tédio! Raízes! Lutas! Angústia! Ainda há tempo nesse tempo transloucado, absurdo e sem cor. Vão surgir mais números binários e cada ser vivo deste planeta viverá cúmplice do dinheiro, do lucro, do cansaço, do consumo, do canibalismo invertido.
Em tempos alheios onde o ‘eu’ está desfigurado por causa do ‘nós’ que é mais egoísta do que o próprio ego do eu, não serve o ‘we’, o ‘wir’, o ‘noi’ nem o ‘nous’ porque são nada mais do que crostas de impessoalidade. Talvez nos sirva o ‘nosotros’ que por etimologia liga o nós+os+outros. Mas isso é difícil demais para pensar, dá nós em nós e assim caminhamos como aqueles seres quadrúpedes com vendas que os impedem de olhar as lateralidades, as alteridades de um mundo que não é plano, nem quadrado, mas é redondo, um arco, sem começo nem fim... mas tudo acaba!

sexta-feira, 11 de maio de 2018

OS FILHOS SÃO PIPAS

Nossos filhos são pipas!
Sim, pois no começo nascem 'ligados' por um fio...
Depois corta-se o fio! E este é substituído por uma linha invisível chamada ato de educar.
No começo esperamos o melhor vento e então os ensinamos a alçarem os primeiros vôos.
Damos corda! Soltamos a linha!
Mas por vezes, quando o vento é demais, é necessário encurtar a linha e trazê-los pra perto de nós.
E dizer: Calma filho! Espere passar a ventania!
E ele se aconchega em nosso colo, dorme e desperta novamente.
E então quer voar!
E lá vamos nós - pais e mães - ajudá-los a voar
E de novo soltamos mais a linha e eles vão se distanciando de nós
Mais um pouquinho... e eles querem voar cada vez mais alto, mas pai e mãe ainda temem o voo do filho e por isso encurtam a linha, trazem eles para perto para lhes dar afeto, dar-lhes conselhos, dar-lhes exemplo e contar-lhes quão difícil é voar sozinho...
E de repente chega a hora mais doída.
Aquela em que os pais vão dando corda, vão soltando a linha e linha se desprende de vez - e os filhos voam, se afastam, vão embora...
E neste momento de preocupação, mas de alegria, que vamos testar nossa capacidade de empinadores de pipas... de educadores de almas, de lapidadores de espírito.

(Ezildo Antunes - Esp. em educação e Mestre em Filosofia)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

HOMINÓIDES?

"O primeiro fóssil reconhecido como Homo sapiens moderno, dotado de fronte ampla e queixo saliente, apareceu no Oriente Médio, há cerca de 90 mil anos."

Informação interessante não?
90 mil anos?
Sapiens? de Sapiência? de sabedoria?
Erectus porque olha o horizonte, possui sonhos?
Habilis porque desenvolveu sua manualidade, sua lida com os utensílios?
Tudo isso marca psico-fisiologicamente a herança onto-filo-gênica daquilo que somos.
Evoluímos?
É! parece que pelos menos no que diz respeito ao uso manual das coisas evoluímos muito!
E a sapiência?
Parece estar sendo superada por um dos prêmios da estrutura evolutiva do nossos membros.
Sabe qual é prêmio?
É a capacidade que só esse homo sapiens moderno tem: opor os polegares.
É nesse ritmo que estamos 'andando':
Usando em telas "vazias' nossos polegares opositores.
Teclando com dois dedos polegares, esquecemos do indicador.
Sim, ele deveria indicar, o rumo, o movimento, o horizonte, a vida...
Esquecemos o médio!
Sim, este dedo sinal de mediania, de meio termo, de equilíbrio.
Esquecemos o anelar!
Dedo da aliança, do anel, do amor, da postura, da confiança, do compromisso.
E o mínimo?
O mínimo que temos que fazer é começar a pensar pela pequena sabedoria que as mãos proporcionam, uma nova postura desse Homo que somos.
Se descuidarmos, usando demasiadamente os polegares opositores, corremos o risco de envergamos nossa coluna vertebral, perder o sentido de horizonte e assim perder o poder de pensar.
Cuidado Hominóide!



sábado, 12 de agosto de 2017

FILOSOFAR PARA PENSAR A COMPLEXIDADE

FILOSOFAR PARA PENSAR A COMPLEXIDADE

Ezildo Antunes[1]

            Alguns dizem que filosofar é: “como um cego procurar um gato preto num quarto escuro, onde não há gato nenhum.”
            Isso não é verdade!
            Para além do nada, a filosofia pode sim exercer um papel de fundamental importância para o desenvolvimento do pensamento complexo. Aliás, alguns dizem que as palavras: pensamento e complexo podem representar um belíssimo pleonasmo, já que pensar é uma atividade complexa.
            No entanto, hoje, as pessoas não pensam de forma complexa, ou seja, o pensar, no sentido de examinar os vários aspectos da vida tornou-se quase descartável. Nunca o ditado: “falar sem pensar” está tão em voga. É só conferir os chamados ‘textões’ nas redes sociais. São poucos aqueles que tem coerência argumentativa, ou seja, fala-se o que quer, quando quer, sobre tudo, sem um aprofundamento para se chegar ao cerne das questões.
            Como bem ensinou o filósofo alemão Hegel (1770 – 1831), é preciso que haja um movimento dialético no raciocínio quando investimos em debater qualquer tema. Esse movimento dialético é formado pelo tripé: tese-antítese-síntese e é a partir disso que deve se pautar uma discussão no nível do raciocínio complexo.
            O que perdemos com o pseudo ‘fale o que quiser’, foi a capacidade de dialogar sobre as questões mais cruciais da condição humana. Ao deixarmos de lado o λόγος, termo da língua grega que pode ser traduzido como palavra, no sentido de falar com razão, fomos nos tornando pessoas superficiais no tratamento de temas que por vezes são de suma importância para a nossa existência.
            Portanto, é no resgate dessa capacidade de discussão dialógica que podemos conferir um papel de suma importância para o filosofar desde os primeiros anos da infância.
            Neste caso, congratulações às escolas que desde as séries iniciais já se preocupam com o ‘pensar’, pois quanto mais cedo se começa a reflexão filosófica, antes é a maturação do pensamento sobre assuntos relevantes para as crianças e os adolescentes.
            Isso não significa que devemos despejar um texto hermético de um filósofo como Kant (1724 – 1804) por exemplo, mas, ir inserindo teses filosóficas a partir de situações problemas que os estudantes vivenciam na cotidianidade.
            Um dos temas mais cruciais para o desenvolvimento do pensamento complexo é exatamente explorar as questões ligadas às escolhas e decisões. Pensar para fazer é uma tese forte no âmbito filosófico, pois os estudantes terão mais êxitos em suas escolhas e decisões quanto mais forem de fato pensadas a partir da pré-visualização das melhores possibilidades. Ao realizar isso, as crianças e adolescentes nada mais estarão fazendo do que pensar sobre o pensar, isto é, de forma culta, estarão utilizando-se da metacognição.
            Por fim, a filosofia não deve ser suprimida das grades curriculares, pois ela tem uma função decisiva no que diz respeito ao desenvolvimento intelectual dos estudantes do nosso tempo. Pensar a partir dos passos filosóficos é potencializar o ímpeto crítico e criativo que há em cada um dos estudantes.
            Além disso, a filosofia pode auxiliar no desenvolvimento de muitas habilidades cognitivas as quais são apresentadas por Kohan, 2000: “... habilidades de investigação, habilidades de raciocínio, habilidades de organização e habilidades de tradução (diálogo).” (p. 63 – 64).
            Filosofar, portanto, não deve ser visto apenas como um complemento para o desenvolvimento intelectual dos estudantes, mas deve ser mantida no centro do processo de aprendizagem para que formemos estudantes não só com autonomia de pensamento, mas ‘instrumentalizados’, para moverem-se na complexa aventura da existência.
           








[1] Professor de Int. à Filosofia. É Especialista em Educação e Mestre em Filosofia.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pai, homem forte de bravura


Com os olhos rasos d’água ponteio a minha viola
Pra render minha homenagem àquele que eu tanto adoro
Homenagem ao meu Pai homem forte de bravura
Não me deu tudo o que eu quis, me ensinou a ser feliz
Conselhos tinha de sobra.

Tudo o que ficou guardado aqui em minha memória
São marcas de amor gravadas, fazem parte dessa história
Olhar de autoridade, mas tinha também ternura
Bons exemplos papai deu, hoje a saudade bateu
Daqueles tempos de outrora.

Se hoje eu sou homem feito, eu fui o seu aprendiz
Desde a lida lá na roça e o que na cidade eu fiz
Respeito à natureza, gosto por moda de viola
Pra você a gratidão, do fundo do coração
Nesses versos de viola.

Nos seus passos quero andar estampando alegria
A lembrança permanece, sabendo que é meu guia
Na certeza do que é o bem que um dia você ensinou
Agradeço pelo amor, assim como um cantador

Eu digo muito obrigado.

quarta-feira, 15 de março de 2017

sábado, 4 de março de 2017

ENTRE

ENTRE

Entre! A porta está de frente pra rua
Entre! Entre a minha boca e a sua
Entremeios...
Meio entreaberto
Meio deserto, aberto, entre... agora saia...
Entrega-te aos passos por entre as pedras
Lá vêm mais dois versos
Versos entre redemoinhos, moinhos de ventos...
Entre nós dois o que há?
Uma fábula?
Um conto?
Um poema?
Um longínquo lugar?
Agora “entre aspas”
Depois verdade
Do ontem não lembro.
Entrelace de azuis, desenlace e trama, drama...
Justo agora que não temos mais tempo, só cuidado.
O que fica entre o passado e o presente?
O que o presente tem do passado?
Nem vou citar do futuro... (não sei)
Pois tempo não se mede assim!
Entre minhas palavras e aquilo que penso, aquilo que sinto.
Ninguém há de saber...



         #Bertulinha/17

domingo, 29 de janeiro de 2017

SE

Se algum dia me disseres que a dor já passou
Então levanto de madrugada e corro para os seus braços
Saio correndo feito água de rio que não encontra obstáculo
Fujo feito lava de vulcão incontrolável
Beijo-a feito furacão envolvente
Abraço-a feito rebento de semente em terra fértil.
Se algum dia disser que há esperança
Então não preciso de bússola
Voo até os confins da galáxia
E puxo-a pela mão
Corro contigo na chuva
Compro pra ti um cachecol carmim.
Se algum dia me disser que estás feliz assim
Então me encolho
Me fecho como um caracol frente a um punhado de sal
Me retiro como super herói que não quer revelar a identidade
Vou-me como folha sem rumo tocada pelo vento.
Se algum dia me disser que está tudo terminado
Então me transformo em ponto final
Não escrevo mais poesia
Não dedilho meu violão, não acendo mais fogueiras
Não faço mais nada
A não ser viver até o pôr do sol
Não canto, nem choro, nem rezo, nem durmo...
Fico aí pelos cantos como um moribundo esperando a ferida cicatrizar.
Se me disseres que os tempos são outros
Então eu concordarei e pedirei só pra descansar em paz
Peço licença e me refugio em um casebre nas montanhas de gelo
Ali acendo, aceno, ascendo...



                                              (Bertulinha/17)

domingo, 22 de janeiro de 2017

SEMIFUSA

Há tantas coisas em semifusa
Há tantas coisas em ‘desarrollo’
Em meio mundo, meio difuso, meio confuso...
De com+fusão, de descompasso, sem fusão.
E agora o que representam palavras como:
Pedra, beijo, mar, fim, tempo, calçada?
E o puramente nadificador?
E o espumante? E o licor?
Cadê as pernas, o voo, a alma?
Vê a palavra grifada a cima?
Foi um erro! Troquei a posição do ‘l’ e do ‘a’.
O ‘l’ vinha primeiro, depois o ‘a’!
Mas vi que o erro era um acerto!
Óh lama! Pra que serve?
Óh alma! Ainda vives?
Em derrocada está o tempo! Está a lama! Está a alma!
E agora o que vês pelas fendas deixadas pelas suas decisões?
São só fendas. Impenetráveis a não ser pela luz.
Óh luz! Quem é capaz de suportar a ardência nos olhos?
Preferes então: Fendas ou Vendas?
Com vendas não vês a fenda e sem fendas não vês a luz.
Vendas? Venda as vendas, fique com as fendas...
Pois onde há fendas, há luz, há passagem, há esperança...
De semifusa à clareira!

E... é... parece ser só isso.

           (Bertulinha/17)